Aline Sardinha
Entrevista sobre Transtorno do Pânico

1) O que é o Transtorno do Pânico??

O Transtorno do Pânico (TP), é um transtorno de ansiedade, caracterizado pela ocorrência de ataques de pânico inesperados e pela constante preocupação que o indivíduo experimenta em sofrer novos ataques. Um ataque de pânico é uma crise de ansiedade súbita, inesperada, em que o paciente experimenta, em um curto espaço de tempo (10 a 20 min), sintomas de ansiedade tais como sudorese, palpitação, dor ou desconforto no peito,descoforto abdominal e/ou diarréia, falta de ar, tontura, tremores, sensação de frio ou calor, sensação de perda de contato com a realidade etc. Estes sintomas ocorrem em momentos inesperados, às vezes até durante o sono, e desaparecem após alguns minutos. Entretanto, as pessoas com pânico percebem estas crises como muito assustadoras e têm a sensação de que podem morrer, enlouquecer ou perder o controle. O paciente começa a pensar que tem algum problema grave de saúde e que a qualquer momento pode passar mal de novo. Então passa a evitar algumas situações em que considera que poderá ter um ataque de pânico. Alguns chegam ao ponto de não conseguirem mais sair de casa ou mesmo ficarem sozinhos em casa.

2) O que o diferencia de um quadro de estresse?

O estresse é uma reação do organismo de adaptação a situações adversas. Quando um indivíduo está passando por uma situação que exige muito dele, o corpo entra em um estado de alerta para enfrentar essa situação. O estresse se caracteriza pela permanência do indivíduo neste estado por um longo período de tempo, quando começam a aparecer os sintomas físicos e psíquicos do estresse, como desmotivação, cansaço, queixas físicas etc. Assim, o estresse tem um curso mais crônico. O Transtorno do pânico é marcado pelos ataques de pânico, que são episódios de ansiedade que ocorrem somente em alguns momentos. Desta forma, os sintomas do estresse são sentidos como contínuos, e os do pânico, como inesperados e episódicos. Entretanto, há uma forte ligação entre pânico e estresse, já que ambos são disfunções ligados ao mecanismo de ansiedade do corpo humano. Ainda, muitos pacientes experimentam o primeiro ataque de pânico em momentos de estresse em suas vidas, como em momentos críticos no trabalho ou na vida pessoal.

3) Como detectar?

Os ataques de pânico são facilmente detectáveis, tanto pelo paciente quanto pelo médico, em função do grau de desconforto e medo experimentados. Entretanto, os pacientes inicialmente procuram os serviços de saúde a fim de encontrar alguma causa física para os sintomas. Nos EUA, 25% dos pacientes que chegam na emergência cardiológica com suspeita de infarto estão, na verdade, experimentando ataques de pânico. No passado, tais pacientes sofriam muito pela incompreensão dos médicos que, ao não detectarem nenhum problema físico, diziam que o paciente não tinha nada, que estava inventando. Felizmente, hoje a maior parte dos médicos e profissionais de saúde, na ausência de uma causa física que explique os sintomas, encaminham corretamente o paciente para o psiquiatra ou psicólogo.

4) Como o paciente desenvolve a Síndrome?

Todos nós podemos ter ataques de pânico em momentos de maior estresse. É simplesmente uma ativação exagerada do nosso sistema do medo, sem maiores consequências, apesar do desconforto. Contudo, o Transtorno do Pânico acontece quando o paciente experimenta um ataque de pânico, se assusta muito, pensando que pode ter um grave problema de saúde e passa a se preocupar muito com sua saúde e a monitorar o funcionamento do corpo. Nessa caso, o paciente se torna ansioso em relação a sua saúde e esta ansiedade elevada aumenta a probabilidade de ocorrerem novos ataques de pânico. A cada novo ataque, o paciente se sente mais ansioso e tem mais ataques, entrando num ciclo vicioso. Então o paciente passa a ter medo de ter ataques em diversas situações e evita estas situações ou as enfrenta com muita ansiedade, o que favorece a ocorrência dos ataques de pânico nestas situações. Desta forma, quando mais o paciente se preocupa e evita situações, mais provavelmente ele terá um ataque de pânico. Neste momento, podemos dizer que o paciente desenvolveu o Transtorno do Pânico.

5) Existem pessoas mais propensas?

Já existem estudos que mostram que pessoas com transtornos de ansiedade em geral tendem a ter casos de transtornos de ansiedade na família, o que sugere que pode haver genes específicos que predisponham o sujeito a ser mais sensível à ansiedade. Entretanto, sabemos que o que faz com que o sujeito desenvolva o transtorno é a preocupação que ele sente ao ter um ataque de pânico. Ter ataques de pânico não constitui um problema, se preocupar com eles sim. Assim, pessoas que são mais preocupadas com sua saúde, que tendem a ver estes sintomas como uma grande ameaça, estão mais predispostas a desenvolver o transtorno do pânico.

6) Como tratar?

O tratamento de escolha atualmente para o transtorno do pânico é a Terapia Cognitivo-Comportamental. Em alguns casos, a terapia pode ser acompanhada da prescrição de medicamentos por um médico psiquiatra, normalmente uma classe de antidepressivos chamada de inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS). A terapia cognitivo-comportamental promove a informação do paciente a respeito do transtorno, do quanto os sintomas constrituem uma reação do organismo e não um sinal de que o paciente sofre de uma doença grave. A terapia atua corrigindo as crenças e percepções do paciente, de modo a diminuir seu estado de ansiedade e preocupação. O terapeuta também ensina ao paciente técnicas de relaxamento e respiração e estratégias para manejar e evitar os ataques de pânico. Por último, a terapia cognitivo-comportamental atua na evitação que o paciente faz das situações, fazendo com que ele gradativamente se exponha a estas situações, munido das estratégias aprendidas, e volte a ter uma vida normal.

7) Quem convive com uma pessoa que sofre com a Síndrome, como pode ajudar?

O entendimento sobre o transtorno é essencial. Saber que o paciente enfrenta um grau de desconforto muito alto faz com que os amigos e parentes ofereçam apoio ao paciente, ao invés de ridiculariza-lo por ter medo de situações que as pessoas normalmente não temem. Além disso, as pessoas que convivem com o paciente podem ser muito úteis para acompanhar o paciente quando este tiver que, ao longo da terapia, enfrentar a situações temidas. Assim, apoio e auxílio instruído são o que de melhor se pode oferecer a um parente ou amigo com transtorno do pânico.

8) As empresas podem ajudar os funcionários no processo de recuperação? Como?

As evitações que os pacientes fazem em função do medo de ter ataques de pânico prejudicam muito sua vida profissional, já que têm dificuldades de ir ao trabalho, de permanecer em certos ambientes, como elevadores, salas fechadas etc. Ainda, alguns pacientes se sentem constrangidos perante os colegas por terem transtorno do pânico. Assim, acho que o entendimento por parte da empresa que que aquele funcionário está passando por um momento difícil, a conscientização dos colegas de que este é um transtorno que gera muito desconforto e que o colega precisa de apoio é essencial. Além disso, a empresa pode auxiliar oferecendo tratamento adequado, o que estudos americanos mostram que compensa financeiramente em muitos casos, para evitar perdas de proditividade e com o absenteísmo, ou então encaminhar o paciente para tratamento adequando e propiciar as condições laborais para que possa se tratar.


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