A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é um método de psicoterapia baseado em pesquisas científicas e comprovadamente eficaz para diversos transtornos psiquiátricos.
A TCC tem se mostrado altamente eficaz no combate ao Tabagismo1-3 e é a abordagem de psicoterapia recomendada pelo Ministério da Saúde4.
O tratamento para parar de fumar é de curta duração, com um número limitado de sessões, e se baseia na redução gradual do consumo de cigarros. Ao mesmo tempo em que reduz o número de cigarros fumados por dia, o paciente aprende estratégias para enfrentar os sintomas de abstinência e prevenir recaídas.
O processo de parada de fumar é composto de três fases: preparação, retirada gradual e manutenção.
· PREPARAÇÃO: No estágio de preparação, o paciente é instruído sobre os males causados pelo cigarro, sobre as etapas e sobre o que esperar do processo de parada de fumar. Além disso, é feita uma avaliação do estado psicológico do paciente, do grau de dependência da nicotina e do seu estado motivacional para abandonar o cigarro. Esta avaliação é importante, pois permite traçar um plano de tratamento individualizado, adequado às necessidades de cada paciente, potencializando os resultados da terapia.
· RETIRADA: A fase de retirada gradual dos cigarros têm duração de 5 a 6 semanas, ao final das quais o paciente terá parado completamente de fumar. A retirada gradual da nicotina apresenta a vantagem de diminuir o impacto dos sintomas de abstinência, bem como de proporcionar ao paciente a possibilidade de romper gradualmente as rotinas comportamentais associadas ao hábito de fumar, substituindo-as por outras estratégias aprendidas na terapia durante esse período.
· MANUTENÇÃO: Após a data em que o paciente inicia a abstinência completa, tem início a manutenção. O acompanhamento da terapia nesta fase é importante para a prevenção de recaídas. Os encontros com o terapeuta, neste estágio, vão se tornando menos frequentes, até que o paciente se sinta apto a manejar sozinho com os desafios de ser um ex-fumante.
Em aproximadamente 3 meses, espera-se que o paciente não somente tenha abandonado o tabagismo, mas também aprendido estratégias para prevenir recaídas em momentos de vida futuros, aumentando suas chances de se manter saudável e longe do cigarro.
1- Aveyard P, West R. Managing smoking cessation. BMJ. 2007;335(7609):37-41. 2- Nides M, Leischow S, Sarna L, Evans SE. (2007). Maximizing smoking cessation in clinical practice: pharmacologic and behavioral interventions. Prev Cardiol.; 10(2 Suppl 1):23-30. 3- Lancaster T, Stead L, Silagy C, Sowden A. (2000). Effectiveness of interventions to help people stop smoking: findings from the Cochrane Library. BMJ; 321:355-8. 4- Ministério da Saúde (2001). Abordagem e Tratamento do Fumante: Consenso.
Entrevista sobre fumo e exercício - Aline Sardinha
Revista “Contra-Relógio”
Edição setembro 07
Matéria especial “Largue o cigarro correndo”
Entrevista com a Psicóloga Aline Sardinha
Márcio Dederich: Acompanhamento feito junto a fumantes que recorreram ao Hospital do Coração, SP, para deixar o vício, identificou os quatro principais fatores que mais prejudicam as tentativas de quem deseja parar com o cigarro: 1)fumar sempre a mesma quantidade de cigarros por dia aumenta 9 vezes o risco de recaída; 2) Usar o cigarro como estimulante aumenta 6 vezes; 3) Insatisfação com a vida sexual aumenta 4 vezes e 4) Morar com fumantes aumenta 3 vezes. Olhando agora pelo lado positivo, analisando as pessoas que conseguem efetivamente se livrar do fumo, que fatores citaria como aqueles que mais as podem conduzir ao sucesso?
Aline Sardinha: Ao contrário do que se constuma pensar, parar de fumar não se restringe apenas a uma questão de “força de vontade”. O hábito de fumar é mantido por diversos fatores, entre eles, fatores físicos (a dependência química da nicotina), comportamentais (os hábitos associados ao fumar), cognitivos (crenças que mantém o hábito), emocionais e motivacionais. Esses fatores estão presentes para a maioria dos tabagistas, em maior ou menor grau e, por isso, cada caso precisa ser avaliado individualmente. A “força de vontade” consistiria apenas na motivação da pessoa para abandonar o cigarro, mas todos os outros fatores precisam ser atacados para se ter sucesso no tratamento do tabagismo. A motivação é essencial e mesmo pessoas ambivalentes em relação à decisão de parar ou não de fumar podem se beneficiar de intervenções terapeuticas motivacionais. O fator emocional também é muito importante, na medida em que muitas pessoas associam o cigarro a situações em que experimentam emoções, tanto positivas quanto negativas. Alguns fumam quando se sentem estressados, a fim de relaxar, quando se sentem cansados e precisam se concentrar, para se distrair e afastar a tristeza em momentos difíceis. Há ainda aqueles que associam o cigarro a emoções positivas, como após a relação sexual, em momentos de alegria, como festas e comemorações. Dessa forma, parte do tratamento para o abandono do cigarro terá que ser dedicada a ensinar ao ex-fumante maneiras alternativas de lidar com estas emoções, que não incluam o cigarro. A abordagem do fator cognitivo, das crenças e dos mitos relativos ao tabagismo e ao processo de parar de fumar, também é uma parcela signiticativa do processo de parada. Por exemplo, a idéia de que fumar reduz a ansiedade e induz relaxamento é um mito bastante comum. Além disso, muitas pessoas temem o ganho de peso após largar o cigarro. Outro mito muito encontrado é a idéia de que se precisa parar de fumar abruptamente, de um dia para o outro. Assim, é essencial que a pessoa que deseja abandonar o cigarro tenha todas essas informações, a fim de facilitar o processo e reduzir seu sofrimento, na medida em que esta estará ciente do que esperar de cada fase do tratamento. Os hábitos associados ao cigarro também são uma barreira a ser enfretada pelos ex-tabagistas. Ir a uma festa onde todos fumam, ingerir bebidas alcoólicas e não fumar é algo complicado nesta fase. Assim como abrir mão do cigarro junto com o café depois do almoço, ou do primeiro cigarro da manhã. Nesse sentido, o terapeuta precisa avaliar minunciosamente esses hábitos e desenvolver alternativas para que o paciente possa parar de fumar, sem que sua rotina tenha que ser demasiadamente afetada. Finalmente, a dependência química da nicotina é, para alguns, o maior obstáculo encontrado ao tentar deixar o hábito de fumar. A nicotina é uma substância que age no cérebro, produzindo mudanças em seu funcionamento, de modo a gerar todas as sensações apreciadas pelo fumante, mas também a causar dependência. Ao obter uma dose diária praticamente regular de nicotina, o cérebro se acostuma a funcionar daquela maneira. Assim, quando a pessoa decide parar de alimentar o cérebro com a substância, este precisará se adaptar à nova realidade e, neste processo, o indivíduo experimentará a chamada “crise de abstinência”, com diversos sintomas, como dores de cabeça, alterações no sono e no apetite, náuseas, irritabilidade, depressão etc. A boa notícia é que esses sintomas costumam durar somente algumas semanas, enquanto dura este processo de adaptação. Porém, mesmo nesse período, há intervenções que aliviam o sofrimento, como medicamentos ou, de forma alternativa, exercícios físicos, em especial os de intensidade moderada a alta, como a corrida. Portanto, um processo de parada de fumar mais tranquilo e com mais chances de sucesso precisa incluir todos ou, pelo menos, a maioria desses fatores. Em relação aos comportamentos citados no estudo do Hospital do Coração, todos englobam questões de hábitos que facilitam o fumo, como morar com fumantes, ou ter o cigarro tão presente na rotina que acaba fumando exatamente o mesmo numero de cigarros por dia, em momentos específicos; ou de situações de emoção negativa, como problemas na vida sexual, ou usar o cigarro para se concentrar quando não se está estimulado o suficiente. Ainda, fumar todos os dias o mesmo numero de cigarros e parar abruptamente é um erro que predispõe à recaída, sendo mais indicada a redução gradual do número de cigarros ao longo de algumas semanas, até parar completamente.
MD: Sendo a prática regular de atividade física um fator que contribui positivamente para que se deixe de fumar, em linhas gerais como age esse mecanismo, como se processa a ação no corpo?
AS: A prática de atividades físicas pode ser muito útil no processo de parada de fumar, na medida em que age em praticamente todos os fatores mencionados acima. Atualmente sabemos que a prática de exercícios físicos produz, além dos efeitos já conhecidos no sistema ósteo-muscular, respiratório e cárdiovascular, efeitos importantes no sistema nervoso, especialmente no cérebro. Os efeitos do exercício na redução da ansiedade e da depressão são velhos conhecidos da literatura médica. A atividade física produz mudança nos níveis de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina no cérebro, o que, além de induzir uma sensação de bem-estar e relaxamento imediatamente após o exercício (as chamadas “endorfinas”), protege o organismo dos efeitos físicos e mentais do estresse do dia-a-dia e dificulta a instalação de quadros de depressão e ansiedade. Ainda, o exercício ajudaria o cérebro a reestabelecer pos níveis dos neurotransmissores “desorganizados” pela abstinência da nicotina, reduzindo a intensidade e a duração dos sintomas experimentados. Por outro lado, atividades físicas produzem efeitos nos centros cerebrais que regularizam o apetite e o sono, o que, além de prevenir um ganho de peso excessivo nessa fase (algum ganho de peso inicial é esperado, mas o peso tende a se regularizar em alguns meses após a parada), melhora a qualidade do sono. Isso também tem um impacto positivo sobre os sintomas da crise de abstinência, já que a insônia, sintoma comum nessa fase, colabora para uma “desorganização” ainda maior dos neurotransmissores. Entretanto, a prática de exercícios não se resume somente a seus efeitos fisiológicos. O exercício promove mudanças comportamentais, na medida em que a pessoa passa a se relacionar com indivíduos que têm hábitos mais saudáveis e passa a frequentar locais em que o fumo “não combina”, como academias e espaços ao ar livre, o que ajuda a quebrar algumas das associações comportamentais que mantém o tabagismo. Além disso, o exercício tem um efeito sobre a auto-estima do individuo, tendo um impacto positivo na sensação de bem-estar e reduzindo os momentos de emoção negativa, que são alguns dos momentos perigosos para a recaída. Assim, praticar exercícios físicos não só ajuda no processo de parar de fumar, tornando-o menos sofrido, como também reduz a probabilidade de recaídas, na medida em que produz mudanças no estilo de vida e o rompimento com antigos hábitos, além de ter um impacto emocional positivo, prevenindo as recaídas.
MD: Em se tratando de largar o cigarro, comparativamente às demais formas de exercícios existentes, que vantagens adicionais estará levando o indivíduo que resolve se dedicar às corridas, atividade aeróbia por natureza?
AS: A corrida, por ser um exercício aeróbico de maior intensidade, produz efeitos cerebrais mais significativos, quando comparada aos exercícios de menor intensidade. Diversos estudos científicos comprovam os efeitos ansiolíticos da corrida e alguns inclusive encontraram níveis mais baixos de ansiedade e maior sensação subjetiva de bem-estar em participantes de grupos de corrida. Além disso, o indivíduo que fuma costuma se perceber como fisicamente limitado, em função dos efeitos do fumo sobre o sistema cardiovascular. Nesse sentido, em função dos efeitos da retirada do cigarro sobre a condição física aparecerem rapidamente, ser capaz correr vai representar para essas pessoas uma diferença significativa, comparada ao que conseguiam fazer antes. Assim, se ver correndo pode representar uma motivação a mais para manter-se longe do cigarro. Por último, assim como o fumo, o sedentarismo é um importante fator de risco para doenças cardiovasculares e outras, como acidente vascular cerebral etc. Sabe-se ainda que exercícios moderados a intensos produzem melhores resultados sobre o prognóstico cardiovascular do que exercícios mais leves. Dessa maneira, incluir a corrida na rotina é uma boa forma de compesar o coração pelos anos de tabagismo.
MD: Larga-se o cigarro, ataca-se a geladeira. Resultado: muitos voltam a fumar porque engordaram. Assim como em outras situações semelhantes, em termos psicológicos, não seria essa uma ótima oportunidade para se aproveitar e dar início às corridas?
AS: Algum ganho de peso é esperado no início do processo de abandono do cigarro. O ganho de peso costuma ser de, em média, 5kg. Entretanto, o peso tende a voltar ao normal no primeiro ano após a parada. Contudo, muitos ex-fumantes não conseguem retornar ao peso inicial, não por questões relacionadas à fisiologia da abstinência, mas sim porque mudaram sua rotina alimentar para se adaptar à falta da nicotina e se mantiveram nessa rotina, mesmo após o desaparecimento dos sintomas. A corrida, além de aumentar o consumo de calorias, contribuindo para o controle do peso, pode ser útil na medida em que, pelos seus efeitos cerebrais, contribui para a regulação do apetite, aumenta a sensação de bem-estar e reduz a depressão e a ansiedade, dois grandes vilões do ganho de peso.
MD: Fumantes podem ser agudos ou crônicos. Entre uns e outros há os fatores genéticos tornando mais difícil abandonar o vício. Que outras terapias modernas podem ser associadas às corridas de modo a aumentar ainda mais as chances de sucesso para os que querem parar de fumar?
AS: O tratamento de escolha para o tabagismo atualmente é o tratamento psicológico, através da Terapia Cognitivo-Comportamental. Essa terapia é a que apresenta os resultados mais satisfatórios para o tabagismo, exatamente porque possui intervenções comprovadamente eficazes para trabalhar com todos os fatores de manutenção do hábito de fumar e possui flexibilidade suficiente para se adequar às necessidades e limitações de cada cliente e para absorver novas técnicas que tenham se mostrado eficazes em ajudar o fumante. Assim, um bom terapeuta poderá avaliar que estratégia funcionará melhor para cada caso e ainda, se for necessário, encaminhar a pessoa para outros profissionais que possam contribuir, como o médico, no caso das medicações que ajudam em alguns casos, o professor de educação física, para a prescrição adequada de exercícios, ou um nutricionista, para reduzir o ganho de peso. Além disso, a Terapia Cognitivo-Comportamental para o tabagismo possui intervenções específicas para a prevenção de recaídas, o que contribui muito para sua eficácia, uma vez que estudos mostram que o mais difícil não é parar de fumar e sim, manter-se longe do cigarro.
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